Leia a matéria que saiu essa semana na Revista Veja
Todas as pessoas têm direito à vida e à liberdade, rezam as cartas fundamentais das democracias. A americana vai além e garante até o direito à busca da felicidade. Nem as utopias mais arrebatadas, porém, falam numa conquista que está cada vez mais se insinuando na lista de prerrogativas da humanidade: o direito à beleza. O que era obra da natureza, fruto do acaso genético, sem possível intervenção humana - basicamente, rosto sem marcas, corpo com medidas proporcionais, pele viçosa, dentes perfeitos -, foi sendo decifrado e aprimorado pela medicina e pela tecnologia e agora pode ser adquirido na clínica de estética mais próxima, com desconto à vista ou em suaves prestações mensais. Acontece assim que a beleza, como antes dela o automóvel, a TV em cores, o walkman, o celular e, logo (espera-se), a TV de plasma, se tornou artigo tão cobiçado, e por tanta gente, que baixou do olimpo dos preços proibitivos para o maracanã das promoções acessíveis a uma boa parte dos mortais. No país que inventou o pré-datado, o trinta dias fora o mês e outras obras de criatividade financeira, a plástica em doze vezes no cartão é um dos passaportes para a disseminação do direito à beleza. Não se trata aqui de comprar a estampa excepcional de uma Gisele Bündchen ou uma Vera Fischer - mesmo porque quem imagine ser possível fazê-lo sofre de carências que bisturi nenhum pode atender. O direito à beleza hoje é varrer ruguinhas desde sempre consideradas inevitáveis, empinar seios cadentes, domar dentes desalinhados. Enfim, melhorar aquilo que a natureza nos deu e, assim, enfrentar a estrada da vida com um pouco mais de satisfação. Todo mundo quer ser bonito, inclusive os que dizem nunca, jamais ter pensado nessas coisas. E quase todo mundo pode, hoje, fazer algo em favor da própria aparência. As facilidades são tantas que até quem aparentemente não tem o que melhorar sempre encontra algum espaço para o aperfeiçoamento. Veja-se a beldade gaúcha que ilustra estas páginas. Juliana Borges, 1,78 metro de altura, 58 quilos, tinha um patrimônio estético básico e uma idéia em mente: ser miss Brasil. Para melhorar suas chances, fez uma espécie de joint venture. Parcelou o pagamento do material cirúrgico, enquanto seu empresário cobriu os honorários médicos. De uma só vez, Juliana se submeteu a três cirurgias: corrigiu orelhas ligeiramente abertas, realizou uma lipoaspiração e colocou prótese nos seios. Para completar, removeu algumas pintas e fez preenchimento nos dois lados do maxilar "para dar mais ângulo ao rosto". Em 2001, conquistou o título cobiçado. Precisava fazer tudo isso? Provavelmente não. Mas, em existindo a possibilidade, e ainda por cima para alguém que está no ramo da beleza, é difícil resistir. "Acho que é muito gostoso melhorar a aparência e isso, hoje, está bem acessível", atesta a ex-miss, atualmente modelo. Juliana é prova das mudanças de comportamento que fizeram desabar os pilares sobre os quais se apoiavam as regras da primeira onda da era das intervenções estéticas. Eram elas: 1) adolescentes têm espinhas e sofrerão muito com isso; 2) menores de 20 podem, no máximo, corrigir o nariz e as orelhas; 3) plástica de mamas, só depois de amamentar o último filho; 4) plástica no rosto é aceitável, sob sigilo absoluto, a partir dos 55 ou mais; 5) barriga e culote se escondem com cinta; e 6) homem que é homem não liga para a aparência. Nesta época de lipoaspiração, Botox, lifting sem corte, lifting com corte mais sutil e malhação de resultados, tudo isso parece coisa do século passado. E é mesmo. A médica mineira Daniela Mendes tinha 28 anos, um ex-marido e uma filha quando, há pouco mais de um ano, fez sua primeira plástica, para colocar prótese de mama. Na mesma ocasião, aproveitou a anestesia e fez um "miniabdômen" (lipoaspiração com retirada das sobras de pele). "Sabe quando você sai do hospital e o peão da obra já está mexendo? Foi assim", conta, entusiasmada. No ano seguinte, lá estava ela de volta à mesa de operação, dessa vez para uma lipoescultura da axila ao joelho. "Sem dúvida, vou fazer outra no ano que vem. Só não sei o quê - talvez uma de nariz", planeja a médica, que ainda faz drenagem linfática duas a três vezes por semana e já passou por algumas sessões de depilação a laser. Nas clínicas de estética - que vão de minicentros cirúrgicos aos fundos do salão de cabeleireiro da esquina -, a lista de tratamentos é variada, os preços, também, os métodos, mais ainda. Alguns são tão obviamente ilusórios (como é, afinal, que se "quebra" uma célula de gordura?) que só podem ser atribuídos ao eterno desejo humano de encontrar respostas fáceis para questões difíceis. Mas é raro achar quem, não tendo caído nas mãos de um charlatão ou cedido às promessas enganosas, saia insatisfeito. A era da beleza para todos está em plena expansão. "Está havendo uma espécie de socialização da indústria da beleza e da cosmética", avalia Vera Lúcia Marques, coordenadora da área de estética, cosmetologia e perfumaria do Senac de São Paulo. "A oferta de serviços não pára de crescer, e as pessoas aproveitam." Um indício dessa revolução é o número de profissionais dedicados à promoção da ótima aparência. O curso de estética do Senac do Rio de Janeiro forma 2.200 alunos por ano. No Senac de São Paulo, que em trinta anos formou 50.000 esteticistas, organizava-se um curso de aperfeiçoamento por ano; hoje, é mais de um por mês. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica registra um total de 4.000 médicos filiados, quase o dobro de dez anos atrás. Na conceituada Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a plástica é, entre as cirurgias, a especialização mais cobiçada - cinco anos antes, havia dez candidatos às quatro únicas vagas do curso; no ano passado, foram 45. Calcula-se que existam cerca de 5.000 clínic |
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